Meu pai saiu do Piauí com o que cabia nas costas de um animal e a certeza de que trabalho duro é a única moeda que nunca desvaloriza. Ele era tropeiro — guiava tropas pelo sertão nordestino em estradas que muitas vezes não existiam no mapa. Sabia ler o céu para prever chuva, ler o chão para encontrar pasto, ler o silêncio para sentir perigo.
Cresci olhando para ele e aprendendo uma coisa que nenhuma escola ensina da mesma forma: que o caminho se faz caminhando. Que você não espera a estrada estar pavimentada para partir. Você parte, e a estrada vai aparecendo debaixo dos seus passos.
"Meu pai nunca me disse para ser rico. Me disse para ser digno. Descobri que, quando você é genuinamente digno, a riqueza é consequência."
A Herança Que Não Tem Preço
Quando as pessoas olham para o que construí — as postos Petroshop, o Canela Beach Resort, as conexões internacionais — e me perguntam de onde vem a força, eu respondo com honestidade: vem de ter visto meu pai nunca reclamar.
Não que a vida dele fosse fácil. Era difícil. Era dura de um jeito que minha geração raramente conhece. Mas havia nele uma dignidade silenciosa, uma convicção de que estar vivo e em movimento já era vitória suficiente para começar o dia.
Essa herança não tem escritura. Não tem inventário. Mas foi o bem mais valioso que recebi.
De Tropeiro a Empreendedor: A Mesma Lógica
Existe uma lógica profunda que tropeiros e empreendedores compartilham, e eu só fui entender isso décadas depois: ambos trabalham com incerteza como matéria-prima. O tropeiro não sabe se vai chover. Não sabe se o animal vai aguentar o trajeto. Não sabe se o mercado vai estar aberto quando chegar.
O empreendedor não sabe se o mercado vai aceitar o produto. Não sabe se o capital vai durar. Não sabe se os concorrentes vão reagir.
O que diferencia quem chega de quem desiste não é a ausência de dúvida — é a decisão de continuar em movimento mesmo quando a dúvida está presente. Meu pai me ensinou isso. Não com palavras. Com exemplo.
O Que Quero Deixar Para Meus Filhos
Penso muito nisso quando trabalho no Canela Beach Resort. Não estou construindo apenas um hotel. Estou construindo uma prova — tangível, permanente — de que o filho de um tropeiro do Piauí pode criar algo que rivaliza com os melhores do mundo.
Meus filhos vão crescer vendo isso. Não como imposição, mas como possibilidade. Como prova de que o lugar onde você nasce não determina onde você chega. Que a escassez não é destino — é ponto de partida.
E espero que, um dia, quando alguém perguntar de onde vem a força deles, eles respondam da mesma forma que eu respondo: vem de quem veio antes.
Meu pai era tropeiro. Eu sou empreendedor. Meus filhos serão o que escolherem ser. Mas a fé no trabalho, a dignidade em cada decisão e a coragem de partir mesmo sem saber o destino exato — isso passa de geração em geração, e não pretendo ser o elo que quebra essa corrente.
Pai, este capítulo é pra você.